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Desde que comecei a estudar Arte que me tenho debatido com o conceito de beleza. O que é considerado belo, o que foi considerado belo, o que pode vir a ser considerado belo. Quais os standards, os cânones, os rácios, quais as simetrias, as harmonias, as complementaridades. Como se constrói o belo, como se define, como se identifica. Haverá uma ideia única de beleza, será a beleza genérica, haverá um ideal, um propósito ou será obra do acaso. Será a beleza apenas uma utopia, um sonho, um desejo, uma fantasia. Será obra do divino, poderá ser programada, formatada, industrializada. Será que a beleza pode ser universal. Poderá apenas um exemplo beleza satisfazer todos os gostos do mundo. Será a beleza mensurável ou será a beleza um fogo fátuo etéreo que inevitavelmente se desvanece com o tempo, no espaço ou na memória.

Ao longo dos anos, todas estas frases tiveram um ponto de interrogação no fim e a verdade é que nunca encontrei nenhuma resposta que me satisfizesse por completo. Se todos éramos atraídos pela ideia de beleza, porque é que não gostávamos todos da mesma coisa? Porque é que, mesmo em apreciações expontâneas, as noções de beleza divergiam tanto entre as pessoas?

 

Um paradoxo epifânico

Enquanto criador de conteúdos eróticos, conceptualizar a beleza com o intuito de estimular a libido alheia era ainda mais desafiante. Pensar a ideia de beleza, não só a nível pessoal, mas a um nível que pudesse potencialmente atrair a atenção do maior número de pessoas, foi uma tarefa que sempre remeteu para questões me levavam a reflexões complexas, profundas, existencialistas até. Talvez por defeito, ao longo da vida me tenha deixado interessar demasiado por dúvidas existencialistas, mas não obstante tem sido esse o caminho que me tem mostrado os lados mais ambivalentes das questões e que, hoje em dia, me tem servido de base argumentativa nas partilhas que faço com muitas pessoas que me procuram, quer no contexto criativo, quer em sessões de sex coaching. Amiúde, as questões relacionadas com a beleza (seja ela a beleza própria, o entendimento do que é belo, a percepção da beleza, a subversão da beleza, a obsessão pela beleza ou simplesmente a negação da beleza) são o centro das nossas conversas. Mas o mais interessante é que, muitas vezes, estas conversas são baseadas num axioma paradoxal: por um lado, a ideia de que a beleza é subjectiva, que está “nos olhos de quem vê”, de que gostos não se discutem, de que “o que é bom para mim pode não ser para o outro”; por outro, de que a beleza é um bem maior, é o potencial máximo, é um objectivo com parâmetros, regras, imposições, definições, critérios e obrigações.

E na verdade, a ideia de beleza é um reflexo desse paradoxo. Mas a conclusão a que cheguei, com base em pesquisa, experiência e intensa reflexão, é que a beleza não é uma característica, é sim um sentimento. E esta ideia mudou um importante paradigma dentro de mim.

 

A beleza não se vê, sente-se

Sentir a beleza é muito mais do que apreciá-la ou demonstrá-la. Sentir a beleza é sentir o seu impacto, não derivado da forma, mas do conteúdo, e não no sentido clichê de que “a beleza está no interior”, mas no sentido de a beleza tem um impacto muito mais amplo do que o mero impacto superficial. A beleza é o que nos impede de ficar indiferentes a algo que nos provoca uma sensação positiva. Há um efeito químico e físico nos nossos receptores sensoriais de prazer, que pode ou não ter a ver com o emissor. As noções concretas de beleza são meras quimeras. Não existe apetência para ser belo, existe apetência para sentir que algo nos toque como belo. E aí sim, reside a sua subjectividade. E aí sim, reside o seu mistério, a sua subtileza e a sua virtude: na capacidade de estarmos aptos a sentir toda a beleza que nos rodeia, não só como apreciadores, mas como parte integrante dela.

 

A soma das partes é mais sedutora que o todo

Sempre foi fascinante para mim ver como há pessoas que se emocionam perante algo que consideram belo, mesmo que mais ninguém o considere. O que elas sentem, é o resultado de uma história de vida, uma percepção pessoal, uma visão da realidade que mais ninguém tem. E mesmo no caso de haver muitas pessoas a gostar do mesmo objecto, a razão das suas emoções provém de origens diferentes, com diferentes correlações e diferentes impactos. Essas emoções transformam-se muitas vezes em sensações de arrebatamento, reverência, veneração e até submissão. Há uma ressonância sensorial que ultrapassa não poucas vezes a justificação intelectual. Há uma conspiração entre as pequenas coisas que quase sempre supera os grandes feitos. Um simples olhar, um pequeno gesto, uma breve atitude, podem provocar mais beleza do que a maior ostentação do mundo.

A noção de que a beleza é um sentimento está, hoje em dia, constantemente presente em tudo o que faço. A intenção que ponho nas minhas criações é não só representar uma ideia que sinto como bela mas, acima de tudo, representar uma ideia que faz parte de um mundo que tem o potencial de ser ainda mais belo. E no universo da sexualidade, o erotismo é exactamente isso: é a visão positiva e vibrante de um prazer que começa em nós e acaba no infinito das nossas emoções e da nossa imaginação.

É essa beleza que me interessa.

Para que seja sempre um prazer

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